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segunda-feira, 19 de maio de 2008

DA TEMPESTADE AO ARCO-ÍRIS


Esta madrugada entendi o grito silencioso do suicida.
Apenas observei.
Ele estava dentro de mim.
Tentei afungeta-lo correndo com o vento mais feroz enquanto lavava meu rosto em prantos.
De tanto correr sem saber aonde ir estacionei frente ao profano templo de São Francisco.
Disfarcei meu desespero em lábios de cereja, os olhos sujos de negro.
Este grito tem gosto de dentes sujos de sangue.
Tentei em vão lavá-los com o translúcido Vinho Dourado.
Tentei confundi-lo com o aroma e veneno dos mil incensos malditos, visíveis a circular e bailar pelo ar.
Só.
Em meio à multidão.
Apenas a multidão poderia esconder e acolher um velho suicida.
Sem perguntas.
Não há respostas em meus olhos, só a frieza.
Frieza hoje amiga, pois não quero atenção, dispenso compaixão, apenas quero estar presente e me entender.
Há dias de luz e dias de trevas para quem vive na dualidade.
Hoje quero apenas observar.
Em devaneios deixo meu corpo cansado dançar.
O Vinho Dourado entra em meu corpo que hoje não busca a iluminação.
Quero anestesia.
Quero eutanásia.
A loucura está a apenas um passo de uma mente em desespero.
De onde tanto terror?
De onde tanta dor?
E a multidão segue em seu buscar, ignorando o buscador suicida, escondido em sua jaqueta de couro, os lábios de cereja e os olhos gelados como a garrafa em suas mãos.
Poderia ter ignorado este grito, seguir adiante me fingindo Brisa superior a tudo.
Mas porque abafar o ciclone?
Por isso o levei a rua.
E deixei que ele rodasse entre minhas entranhas, consumindo meu ser e elucidando o significado da frase Shakesperiana para a vida em Macbeth: "(...) uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria, significando nada (...)”.
Não era a primeira vez a ouvir este grito.
Em outras ocasiões pensei: antes de desistir de tudo, abandonarei minhas posses e sairei pelo mundo.
Esta sempre foi minha tábua de salvação.
O sair pelo mundo de fato nunca chegou a consumar-se, mas os dias vinham e o ciclone era abrandado.
Hoje cheguei a pensar inclusive no roteiro.
Machu Picchu.
Sim!
Meu ciclone teria muito tempo à dispersa-se pelos altiplanos.
Enquanto planejava minha jornada, percebia o que me prendia a este lugar, quais os meus apegos.
De súbito me pegava em desculpas mentais a pessoas e compromissos aos quais pensava não serem importantes para mim.
Enquanto isso, a madrugada passa.
Ouço um samba triste.
Teria sido descoberta?
Em seguida outra canção, última da noite, acredite se quiser:
"Tristeza, por favor, vá embora, minha alma que chora, está vendo meu fim...
Fez do meu coração a sua moradia, já é demais o meu penar.
Quero voltar aquela vida de alegria, quero de novo cantar..."
Assim me despeço.
Só, como cheguei.
Calada apesar de grande tumulto e fúria em minha mente.
Sei que meu Ser e minhas questões me acompanharão aonde for, seja neste templo ou em Machu Picchu.
Mas hoje não quero voltar para casa.
Preciso dormir profundamente.
Mas quero acordar pela manhã.
Nem que seja para lhe contar o que vivi.
O ciclone passará e em seu lugar estará Brisa.
E entenderei melhor minha mente e a loucura que está a um passo de todos nós.
Hoje estou aqui, dedos no computador, a jaqueta imprestável, pois do que chamei poeticamente incenso maldito hoje percebo a realidade: cigarro.
Do hotel, em que solitária tentei adormecer, a única coisa que sobrou foram as olheiras, pois não há cama como a minha, mesmo com a mente a revirar-se sob as cobertas.
Hoje pensei, deveria expor aqui tamanha rebeldia?
Tamanho tumulto?
Não seria um contra-senso à tranqüilidade de Mestra Brisa?
Fui educada a sentir vergonha de tais atitudes e pensamentos e recordo das reprimendas: "Engole o choro ou vou lhe dar motivos para chorar".
Hoje estou cansada, muito cansada.
Cansada de fingir que está tudo bem, quando por dentro o temporal está instalado.
Hoje sou livre para viver o outro lado da alegria e não terei vergonha de responder: "Não. Não estou bem. Mas quero ficar em silêncio".
Hoje serei egoísta, pois é do ego que estou falando.
Do ego percebo a birra.
Do ego percebo a dor.
Surge do nada o calor.
É Mestra Brisa a quem ao Ego direciona o Amor.
Diz-lhe mansamente:
Descansa.
Deixe que lhe cubra de luz.
Deixe que lhe cure.
Não fuja, não há porque ter medo.
Não há porque se esconder.
Quis ver-te e em lucidez lhe presenciei.
O cansaço físico é inevitável.
Mas relaxe.
Abre teus olhos e contempla.
Já estamos em Machu Picchu!
Passamos a noite em negra luz, mas agora o dia nasceu.
Acorda!
O Rei Sol pode esconder-se em negras nuvens, mas eleve-se e sobre elas lá Ele está a brilhar.
Querido Ego fostes formado neste triste plano que anestesia a beleza.
Chega de dor.
Este tempo já passou.
Vamos escolher agora juntos, como viver este momento.
Cientes de que não existe alegria e não existe tristeza.
Não existe pranto e não existe riso.
A ilusão, como teia de aranha faminta novamente lhe cercou e lhe cegou momentaneamente.
Desta vez, porém, por vários momentos nos erguemos da inconsciência.
A solidão foi necessária para que assim acontecesse.
Sentimos a teia pegajosa a amarrar e sufocar.
Agora, com olhos descerrados, miramos a Aranha.
A aranha não existe, a aranha é você.
As aranhas não são más, são somente energias que se apresentam em um corpo ilusório.
Por isso meu Ego te digo, a algo mais em ti, algo mais aterrorizante que a maior das bestas.
Não quero te domar, não sois meu ciclone de estimação.
De ti vem toda a ação que neste momento impulsiona minhas mãos.
Por ti aqui estou.
Mas te peço, deixe que eu torne sua vida mais cheia de beleza.
Passastes muitas vidas a implorar por mim e agora estas pronto para minha presença.
Então não me temas, desfrute.
Não se incomode com outros egos, pois estás certo quando pensas que foi lhe programado conviver com os mais sutis, com os mais elaborados, com os últimos que te podem ferir e despertar este ciclone autodestrutivo.
Observo-te e lhe direciono paz profunda.
Os ciclones também são bons, pois levantam todas as emoções acumuladas no fundo de nosso SER.
Agora é hora da limpeza.
Aos pouco estas emoções vão se transformando de pó à obra, de sombra à luz.
A um ponto, deixarás de ser Ego, não sendo eliminado, mas sendo transformado.
Não tenhas medo das forças de luz que agem hoje sob teu casulo.
O casulo que hoje te cerra, é uma falsa proteção.
Mas somente esta luz e calor que hoje te fortalecem podem transforma-lo na linda borboleta que desafia as leis da gravidade e alça os mais belos céus, os colorindo com as sete luminosas cores de suas asas.
Nenhuma analogia pode descrever com o legítimo crédito a verdadeira beleza e graça dos que se libertam dos casulos da dualidade.
Então serás de fato Iluminado.

Luz, luz, luz,
Mestra Brisa

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